O “FALAR BRASILEIRO” – Os muitos dizeres da nossa Língua

Não é segredo para ninguém que  o falar brasileiro é único, singular, com tantas maneiras e jeitinhos diferentes para expressar o que realmente se quer revelar àquele ouvinte.

Mas será que o brasileiro mesmo tem noção do quanto essa riqueza é gigante? Acredito que poucos. “Puxando a sardinha pro meu prato”(Opa! mais um jeitinho, aí”), a Língua Portuguesa no Brasil é, senão a mais, uma das primeiras da lista no quesito da diversidade no falar.

Não digo isso por ter trabalhado com o idioma com adolescentes por décadas, principalmente, nas áreas de gramática e redação.

O valor de uma Língua deve ser despertado desde a educação infantil. O falar brasileiro é uma característica singular de nossa Língua.
Foto de Yan Krukau

É notório o poder que a língua possui! Contudo, infelizmente, é preciso que pessoas de outros países elogiem nossos escritores e compositores para que o próprio brasileiro dê valor. Que tristeza!

Assim aconteceu, por exemplo, com D. Casmurro, de Machado de Assis, há pouco tempo. Poderia usar aqui uma das formas de nos expressar para falar do fato de terem, lá fora, reconhecido o talento singular do nosso escritor, o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras: “Santo de casa não faz milagre” ou “A grama do vizinho é sempre mais verde”. Sim, acho que cabem.

Acredito que muitos brasileiros, ainda crianças, não foram e ainda não são orientados da forma correta para essa apreciação do falar brasileiro, pela Língua Portuguesa ou o gosto pela leitura. Não basta empurrar goela abaixo qualquer livro para a criançada ler.

Cada criança  tem seu estilo, suas preferências…e é na educação infantil que esse gosto precisa ser despertado e trabalhado com responsabilidade e eficiência. Mas esse assunto é história para outro dia.

Nossa música

Noel Rosa foi um dos maiores compositores brasileiros.
Noel Rosa, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, importante representante da música brasileira. Foto: Wikimedia

E o falar brasileiro na nossa música quanto à originalidade, à diversidade e ao conteúdo? Vou me deter aqui à música popular brasileira e a algumas bandas nacionais de rock.

As letras sempre refletiram a sociedade e todos os problemas que a envolvem, sejam econômicos, sociais e/ou políticos.

Observe a atmosfera política/social de músicas como Rosa de Hiroshima (Vinicius de Moraes), Pra não dizer que não falei das flores (Geraldo Vandré), Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (Roberto e Erasmo Carlos), por exemplo; muitas censuradas pelo regime do governo da época.

Para mudar um pouco de estilo, Polícia (Titãs), Geração Coca-Cola e Faroeste caboclo (Legião Urbana), Camila, Camila (Nenhum de Nós) que alerta sobre a violência contra a mulher… não faltam exemplos.

E mais Djavan, Maria Bethânia, Tim Maia, Fagner, Gonzaguinha e Gonzagão, Ivone Lara, Ira, Toquinho, Capital Inicial, RPM, Cartola, Paulinho da Viola, Noel Rosa, Adriana Calcanhoto, Pixinguinha, Alceu Valença, Ana Carolina, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee, Marisa Monte, Paula Toller…e a lista é interminável.

Formação original da banda Legião Urbana, composta por Renato Rocha, Renato Russo, Marcelo Bonfá, e Dado Villa-Lobos(da esquerda para a direita). Créditos de imagem: by Lucaseisinger in Wikipedia

A letra diz tudo!

É comum ouvirmos a melodia, a música, mas não prestar atenção à letra. O ritmo nos embala, porém a letra abre os nossos olhos, a nossa mente e o nosso coração. E o nosso bom e velho português faz isso muito bem!

A Língua Portuguesa oferece aos seus ouvintes uma mistura de sensibilidade, humor, ironia, criatividade, crítica…de uma maneira singular.

 Para ilustrar, um trecho da música Faroeste Caboclo, da banda Legião Urbana, que retrata a busca por uma vida honesta por João de Santo Cristo, agregada ao sonho de crescer na Capital Federal.

Mas o sonho foi quebrado, pois só encontrou uma vida sofrida, uma grande desigualdade social e envolvida com o tráfico de drogas. A música foi composta por Renato Russo e faz parte do álbum “Que país é este 1978/1987”.

[…] 

Não entendia como a vida funcionava

Discriminação por causa de sua classe e sua cor

Ficou cansado de achar resposta

E comprou uma passagem, foi direto a Salvador

E lá chegando foi tomar um cafezinho

E encontrou um boiadeiro com quem foi falar

E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem

Mas o João foi lhe salvar

[…]

Abaixo, um trecho da  música Asa Branca do cantor Luiz Gonzaga, um dos maiores representantes da música nordestina do Brasil, nosso famoso Rei do Baião:

Quando olhei a terra ardendo

Quá fogueira de São João

Eu perguntei a Deus do céu: Ai

Por que tamanha judiação?

Que braseiro, que fornalha

Nem um pé de plantação

Por falta d’água, perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

[…]

Dentro da música popular brasileira nordestina, Luiz Gonzaga é o seu maior destaque. Em suas músicas, o falar brasileiro fica bem representado.
Luiz Gonzaga, em 1957. Foto: Wikimedia

O Falar Brasileiro e a polissemia

O termo polissemia vem do grego antigo (polys[muito] + sema [sentido]+ ia) que significa termos uma palavra com mais de um significado dentro do idioma. E no falar brasileiro a polissemia é vasta!

[…] A polissemia é uma propriedade fundamental das línguas humanas, que sem ela não poderiam funcionar eficientemente. Seria impraticável dar um nome separado a cada “coisa”, incluindo aquelas que nunca vimos.[…]

A polissemia confere às línguas humanas a flexibilidade de que elas precisam para exprimir todos os inúmeros aspectos da realidade.

Consequentemente, a maioria das palavras são polissêmicas em algum grau.

(Mário Perini. Gramática descritiva do português. São Paulo, Ática, 2000.p.251-2)

Cito aqui a polissemia por ser um ponto interessante da Língua Portuguesa. Quantos significados possuem cada palavra abaixo? Vamos lá.

Palavras que possuem vários significados. Polissemia.

Apenas alguns exemplos que acredito não terem sido difíceis para ninguém. Cada palavra acima tem de 2 a 3 significados; algumas até mais. Agora imagine um estrangeiro aprendendo o nosso idioma. Não seria tão fácil, não é verdade? 

Como você traduziria as frases abaixo para alguém que não fala o nosso idioma?

  1. Bicho, faltou luz lá em casa e tive que fazer um gato no fio do vizinho que a minha irmã vive paquerando, dizendo ela que o cara é  um gato.
  2. Menina, que marmota é essa que ouvi na reunião?

Para o brasileiro é simples: gato como gente bonita ou gambiarra; marmota como fato inusitado. Mas traduzir com a semântica que a palavra carrega complica.

Ilustro o assunto com um pequeno trecho da letra da música “Mais uma vez” da banda Legião Urbana, em que o sol e a escuridão são palavras polissêmicas.

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã

Mais uma vez, eu sei

Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã

Espera que o sol já vem[…]

Que tipo de linguagem pode?

Abro aqui um parêntese para falar um pouquinho sobre os tipos de linguagem, não necessariamente sobre o falar brasileiro.

Pode usar gíria? E o internetês pode? Tudo é possível, desde que se saiba em que momento se usa cada uma delas. Cada ato de comunicação tem o seu emissor/receptor. Não queira falar com um juiz sobre um processo deveras importante usando as mesmas gírias que se usam com amigos nas redes sociais.

Em um concurso público, há normas a serem seguidas; numa mensagem no celular, dependendo de quem está do outro lado, quase tudo é válido. O internetês está mais vivo do que nunca e não podemos discutir.

Acredito que há espaço para todo e qualquer tipo de linguagem, de comunicação entre as pessoas. Cresci ouvindo frases assim: ”Português é difícil”, “Português tem mais regra do que exceção”, “Português é chato”…Prefiro crer que a Língua Portuguesa foi mal interpretada e mal ensinada durante séculos de história.

E como a língua é viva, muitas formas de se expressar hoje, rotuladas como informal, um dia podem vir a se tornar aceitas pelos gramáticos. 

Os falares brasileiros

Com mais de 212 milhões de habitantes, segundo estimativa do IBGE, em julho de 2024, dificilmente o nosso idioma seria homogêneo.

O Brasil possui características distintas em relação a costumes, linguagens, ritmos, crenças, filosofias…são vários países dentro de um só. Há de se levar em conta, a regionalidade, a situação sócio-econômica, o nível de escolaridade do falante etc. 

Os falantes do Nordeste não se expressam exatamente como às do Centro Oeste que, por sua vez, irão se diferenciar da linguagem dos sulistas.  Mineiros, cariocas, baianos, paulistas, nordestinos…tudo é Brasil, cheio de suas diferenças maravilhosas, sotaques únicos, um linguajar rico de palavras inusitadas, que em nenhum outro país possui.

A literatura de cordel, trazida pelos colonizadores, tão rica e que hoje faz parte da cultura popular, principalmente no Nordeste.

E as expressões então: Arre égua! Vixi! Ara sô! Visse! Uai,Sô! Pai d’égua! Oxi! Ainda temos dicionário goianês, acredite!

Quem nunca ouviu falar em Ariano Suassuna e sua peça teatral  Auto da Compadecida com sua linguagem única? Quer um exemplo do típico falar brasileiro melhor que esse? Vale um trechinho:

[…]

João Grilo (para o Cangaceiro) – Mas me diga uma coisa, havia necessidade de você me matar?

Cangaceiro – E você não me matou?

João Grilo – Pois é por isso mesmo que eu reclamei. Você já estava desgraçado, podia ter-me deixado em paz.[…]

Demônio – Calem-se todos. Chegou a hora da verdade.[..]

João Grilo – Então já sei que estou desgraçado, porque comigo era na mentira.

Como relatei anteriormente, a Língua Portuguesa  sempre foi mal ensinada nas escolas a ponto dos próprios falantes do idioma acharem chato, confuso ou contraditório, sem retratar a linguagem do povo.

O nosso país carece de leitura e leitores, e sim, esse tipo de iniciativa começa é na família mesmo! Professor não é mágico nem faz milagres se a sementinha não for plantada desde cedo no ambiente familiar.

Ainda sofremos com um índice enorme de analfabetos em pleno século XXI. 

Frases que só o brasileiro entende

Segue uma breve lista de frases bem conhecidas entre nós, brasileiros, que poderiam fazer qualquer estrangeiro parar para pensar e não chegar a lugar nenhum.

Palavras e sentidos camuflados em mensagens com semântica confusa para muitos; contraditórias, antitéticas, às vezes, porém qualquer falante da Língua Portuguesa entende.

Se analisarmos a frase friamente, realmente é meio confuso, mas…o recado chega aonde tem que chegar. Vamos lá?

  1. Lá em casa tem sorvete, mas acabou. 
  2. Minha mãe esqueceu a chave de casa e ficou presa lá fora. 
  3. Eu conheço essa moça, mas não sei quem é.
  4. Minha mãe só me deixa sair quando o sol esfria. 
  5. Vem aqui ver esse cheiro.
  6. Nossa, a luz dormiu acesa durante toda a madrugada. 
  7. Escuta essa pra você ver.
  8. O movimento da loja está meio parado.
  9. Segue reto toda vida depois quebra pra direita.
  10. Deixei o carro dormir na rua hoje.
  11. Esse cara vive pegando no meu pé.
  12. Fábio está uma geladeira comigo.
  13. Minha mãe me fuzilou com os olhos.
  14. Ele é o meu braço direito.
  15. A festa foi até tarde e acordei morto de cansaço.
  16. Menino, entra já pra dentro!
  17. Se melhorar, estraga.
  18. Corre, mas vai devagar.

Como traduzir essas frases para uma pessoa que não é brasileira?

Orgulho do falar brasileiro

Não poderia encerrar meu modesto artigo sem citar algumas preciosidades da nossa Literatura Brasileira. Mencionei, no início deste artigo, o ilustre Machado de Assis e termino com um pequeno poema de Oswald de Andrade que demonstra um típico falar brasileiro. 

PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro.

Para se encantar com a Língua Portuguesa e o falar brasileiro, além dos já citados, sugiro alguns nomes para começar: Guimarães Rosa (em especial, com seu típico inventar de palavras), Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Verissimo, Clarice Lispector,  Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e Érico Veríssimo.

Todos fazem parte de uma literatura refinada que expressa o modo de pensar e de agir, a sociedade da época e seus costumes, a política, a religião, o retrato do Brasil…cada um em seu tempo.

Não conheço outra forma de conhecer o falar brasileiro e suas particularidades se não por meio dos grandes mestres que fizeram da Língua Portuguesa a forma de se expressar e de viver para o mundo.  


Autora:

Ana Paula Ramos

Professora

A autora é licenciada em Letras pela Faculdade Niteroiense de Educação, Letras e Turismo (RJ) e pós-graduada em Língua Portuguesa pela mesma faculdade. Ministrou, durante 27 anos, aulas de Gramática e Redação nos ensinos fundamental e médio em Brasília-DF.


Referência bibliográfica:

  1. SUASSUNA, Ariano . Auto da Compadecida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 
  2. Revista Língua Portuguesa – Nossos falares. São Paulo. Editora Escala. Ano 8, Edição 69.

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